9 thoughts on “Afinal, como Viveiros vive a política?

  1. Texto muito bom. Venho tentando elaborar um crítica à “economia simbólica da alteridade” de Viveiros e seus discípulos com base na ideia de que a etnologia produzida nesse contexto Cultural do Museu Nacional (instituição fundada por D. João VI, diga-se de passagem) é um artefato ancorado em convenções racionalistas e academicistas que se utilizam da gramática intelectualista do estruturalismo, abusando de conceitos como “sistema”, “estrutura”, “categorias”, “lógica do sensível” etc. e cria efeitos surrealistas, inventando “realidades” indígenas explicadas através de “estruturas sóciocosmológicas”.Enfim, gostei muito do texto de vocês, bom saber que outras pessoas enxergam a falácia da “descolonização do pensamento”, da “virada ontológicas” e outras ideias mirabolantes repetidas por esses eruditos da antropologia euro-americana que curtem um “barato intelectual”.

    • Olá Francisco, gostaria que você explicitasse a relação entre o Museu Nacional ter sido fundado por D. João VI e o fato dele produzir uma antropologia que você considera “colonialista”. Pois, a crítica à tal “Economia Simbólica da Alteridade” é pelo fato dela se utilizar da “gramática intelectualista do estruturalismo”? Qual a antropologia feita no Brasil que não devem à meia dúzia de “gringos” o seu arcabouço conceitual? (Etnicidade, Território, Identidade, é tudo ok? Não rolou uma reapropriação política deles, na busca por uma descolonização, depois de terem sido implementados na Ciências Sociais clássicas? Em caso afirmativo, porque não podemos fazer isso com “sistema”, “estrutura”, ou a “lógica do sensível”? Aliás, isso já não está em andamento?) Eu vejo alguns intelectuais buscando conexões sul-sul como forma de mudar esse quadro, mas muita gente vive de paradigmas “primeiro mundistas”, ainda que “descolonialistas”. Já os efeitos “surrealistas” que criam “realidades indígenas explicadas através de estruturas sociocosmológicas” acho mais interessantes de abordar criticamente. Da minha parte, acredito que “estruturas sociocosmológicas” existam e que elas não restringem aos indígenas – vide “Tristeza da Doçura” e “Western Illusion of Human Nature” do Marshall Sahlins. Nesses textos, eu entendo, a questão é justamente desconstruir o “dado” da fundamentação epistemológica da hegemonia euro-americana. Se você aceita esse princípio, pelo menos em parte, nossa conversa pode ser produtiva. Caso contrário, eu gostaria de entender por que não. Meu incômodo com o EVC, eu resumiria, é que eu acho que ele, como outros autores produtivos, tem escritos com tons diferentes e propósitos diferentes – algo como “fases diferentes”. O cara foi um etnógrafo competente, fez contribuições interessantes para pensar parentesco e corporalidade entre povos indígenas e esse negócio de “perspectivismo ameríndio”, se não pode ser generalizado, ajuda entender algo sobre como as populações amazônicas (e não só) se relacionam com seus Outros – só para lembrar que o artigo é uma revisão e uma proposta, baseada num número extenso de etnografias escritas durante décadas. E tem índio que concorda, e tem índio que não concorda, e tem índio que já escreveu artigo e tese comentando. Já sou mais reservado quanto a essa tentativa de fundamentar uma “antropologia perspectivista” ou dialogar com essa coisa de “virada ontológica”. Agora, ainda preciso da lista de quem escaparia da crítica à “falácia da descolonização do pensamento” ou “extrativismo intelectual”, por que até onde eu vejo a saída tem sido cômoda: basta falar de descolonização, citar alguns autores que tratem disso para se safar… ou basta escrever sobre “política” ou “ativismo” para se livrar da pecha do “extrativismo intelectual”. Ou seja, muita gente completamente ancorada numa pensamento estadista, tributário de modelos euro-cêntricos, (e às vezes reacionário!) discutindo com base em categorias que emergiram em paralelo com a modernidade hegemônica euro-americana se livra dessas questões por se alinhar com o discurso da descolonialidade. Enfim, a antropologia que eu gosto é justamente aquela que me permite um “barato intelectual” – por que para construir soluções não hegemônicas é preciso deslocar o pensamento, hackear o estabilishment. Focault já dizia que é a crítica tende a ser um formato tautológico por que acaba por referendar o que critica – é preciso escrever e pensar de forma diferente para escapar ao que é hegemônico. Viveiros de Castro, imagino, por algumas vezes consegue fazê-lo. Gosto de ver críticas à tal “economia simbólica da alteridade”, é bom que a coisa ande, mas tenho achado improdutiva essa pegada “ad hominem” e unilateral. Do meu ponto de vista se voltarmos a mesma crítica às outras “escolas” elas também tendem a ruir. O que isso indica aliás, é que mais do que escolher paradigmas teóricos mais “morais” ou “revolucionários”, o que precisamos talvez é buscar é uma transformação dos modelos acadêmicos como um todo – especialmente nas Ciências Sociais.

      • Olá João Congo, tudo jóia?

        Bem, eu estudei antropologia na UFMG mas acho hoje que poderia ter empregado meu tempo de maneira mais construtiva, bela, lúdica, artística e terapêutica. Não levo mais a sério nenhuma das convenções da antropologia, nenhum de seus jargões gritados aos quatro ventos como esclarecimento sobre os povos não-ocidentais e não levo a sério nenhum autor intelectual da disciplina. NENHUM. Dedicar tempo e energia a algebrificar sociocosmologias e enquadrar a vida indígena em estruturas e sistemas, pra mim, não faz nenhum sentido. É pegar nossa camisa de força e transplantá-la a gente que não tem nada a ver com isso. É um estranho fetiche ocidental. Portanto, acho que se você quiser alimentar seu interesse e construir ou reforçar ideias que levem a antropologia a sério, conversar comigo será perda de tempo, e você poderá se irritar. A antropologia a meu ver é uma atividade inerte, que só estimula um intelecto ansioso e ávido por se impor sobre todos os outros domínios do ser, sobretudo essa antropologia representada por essa triste figura racionalista mascarada de gênio-santo-louco-radical que é o Viveiros de Castro: apenas um tipo ideal desse pathos antropológico decadente, apenas o mais ilustre e admirado no Brasil. E quanto à sua relação com os povos indígenas, ela não passa de um meio de inventá-los como intelectuais e filósofos pós-estruturalistas. Eu não tenho apreço pela “disciplina” da disciplina, pelo ethos intelectualista exigido nas entre-linhas e nem pelo academicismo, elementos subjetivos que a meu ver são inseparáveis do tipo de pensamento produzido de dentro da atividade acadêmica e da burocracia do saber que sustentam plenamente a antropologia. Ela deve ser demolida, deve ligar-se aos povos indígenas de uma maneira totalmente diferente da feita até agora, assim como o intelecto inteiramente ligado ao ego dos antropólogos deve ligar-se ao coração e à libido de uma maneira plena. É isso que busco, e por isso abandonei a antropologia. Já tive muita fé nela, levei-a muito a sério, mas hoje, tenho uma visão iconoclasta sobre ela e me afasto gradativamente desse assunto, que só me interessa na verdade quando posso desconstruir e criticar com toda força.

        Abraço,

        Francisco.

  2. O texto contém provocações interessantes, dignas de reflexão. Eduardo Viveiros de Castro, obviamente, não está acima da crítica, e também não precisa que ninguém venha ao seu socorro. E, no entanto, tenho a impressão de que o espaço que ele ganhou no debate público tem menos relação com um “hype” de seguidores do que com o fato de que NENHUM outro antropólogo se digna a tentar ocupar esse espaço – e quando o faz é para vomitar retórica conservadora, vide Yvonne Maggie e Roberto da Matta. Nenhum dos “velhos de guerra” quer fazê-lo. Poucos antropólogos “consagrados” estão se pronunciando publicamente sobre o desastre do indigenismo e da política ambiental de um governo que age sob a orientação de gente como Mangabeira Unger, Gleisi Hoffman, Isabella Teixeira, Kátia Abreu, Aldo Rebelo e Eduardo Cardozo. A análise do vazio da “crítica ao PT” por EVC, que ocupa a maior parte desse ensaio, acerta em apontar outras possibilidades, em escapar do comodismo da política “purificada”; mas parece se esquecer que são as decisões e a omissão do governo que potencializaram uma explosão de violência no campo, o aumento dos assassinatos de lideranças indígenas, extrativistas e camponesas. São essas mesmas decisões que colocam como pauta primeira projetos megalomaníacos, tecnicamente inviáveis e de alto impacto social e ambiental. Qual o tom da crítica que deveríamos reservar ao PT? Pessoalmente, prefiro a abordagem de Viveiros de Castro ao quase silêncio camarada dos outros…

    • Sem dúvida a verve política do Viveiros (seu sócio-ambientalismo, por exemplo) é importante, e haver no Brasil um acadêmico como ele, esclarecido, bem informado e defensor de uma mudança radical nas práticas humanas (como o fim do capitalismo) em prol da preservação do planeta é algo muito positivo. Meu problema em relação a ele e à antropologia não está numa crítica em relação às suas teorias políticas e aos belos e impactantes discursos emitidos em seus livros e entrevistas. Aliás, depois de maio de 68, o que não faltam são professores universitários que incorporaram em seus discursos uma verve anarquista e um interesse profundo por relações de poder. Minha crítica se dá em relação às práticas, que continuam as mesmas, e as instituições também, continuam as mesmas, repetindo as mesmas práticas de poder, um mesmo ethos elitista (agora mascarado por um posicionamento teórico à esquerda) e uma mesma subjetividade que preza por uma vaidade intelectual arraigada. Nietzsche, um ex-acadêmico por escolha e por desprezo a esse pathos racionalista, já dizia no Zaratustra: experimente andar sobre a cabeça de um erudito… Eu, pessoalmente, acho que se alguém assim o fizer, verá o ego deles se manifestando ferozmente em prol da defesa do status quo. Peguemos o caso de Viveiros: um ferrenho crítico do estado à la Clastres e à la Deleuze e um ferrenho defensor (teórico) de práticas outras de conhecimento. Apesar de todo esse discurso libertário, Viveiros e vários outros acadêmicos com retóricas similares se alimentam do estado até o osso, perpetrando a mesma estrutura de financiamento de pesquisas (via Capes, via MEC, em suma, via dinheiro público e via instituições oficiais de fomento) que não se alimenta de vias outras de impulso da atividade de pesquisa. São homens téoricos, acomodados numa estrutura academicista conservadora e perniciosa que ceifa a economia popular de um país pobre como o nosso, utilizado para manter departamentos de antropologia que produzem pesquisas abstratas e barrocas de pouquíssima relevância coletiva, (e quando digo isso é para frisar que a etnologia não inclui povos indígenas fora das teses, livros e conferências), devoradas apenas por pequenos grupos de interesse que pragmaticamente contribuem muito pouco ou nada com a sociedade brasileira e com as sociedades indígenas. E isso talvez seja até motivo de orgulho, algo que eles defendem com respostas arrogantes, como se pensar pragmaticamente fosse algo menos “complexo”, menos “inteligente”, ou menos “estimulante” para o “barato intelectual” e a experimentação livre com as formas (em arte, é outra coisa né? na academia isso soa ridículo). Em suma, caro amigo, a antropologia no Brasil, como prática e como modo de conhecimento colonizado que é reproduz um padrão parasitário de relação com os índios e com os cidadãos brasileiros que nunca saberão o que a antropologia é e efetua.

  3. Pingback: Viveiros, indisciplina-te! (GEAC) | Uma (in)certa antropologia

  4. Viveiros de Castro: um narcisista que carrega a roupagem do “anti-narciso”, da “descolonização do pensamento” e da “virada ontológica”. No “perspectivismo ameríndio” temos uma cultura (a humanidade) e muitas naturezas (a diversidade de corpos). No perspectivismo acadêmico-antropológico presente no “sistema sociocosmológico” em que Viveiros se insere, temos uma Cultura (A alta cultura e o intelecto) e muitas naturezas (índios, brancos, ocidentais, orientais, etc.) Para Viveiros, por baixo de cada ser humano em sua roupagem há o intelecto e a Cultura, feitos à imagem e semelhança de um filósofo francês. Viveiros vai aos Yawalapíti e deduz teses de seus discursos, deduz teorias linguistico-cognitivas, deduz filosofias pós-estruturalistas e estruturas sóciocosmológicas triádicas. Só que se entre os índios, mesmo com uma alma humana universal que está no fundo dos animais e de outros seres, é o homem quem de fato come o pecari, entre os antropólogos, mesmo com um mesmo intelecto Cultural democraticamente dividido na humanidade, são eles quem têm prestígio internacional, louros econômicos e uma série de privilégios de classe na sociedade da qual fazem parte. O perspectivismo Viveiriano: uma alma como pano de fundo (um ego poderoso – um narcisismo arraigado – uma vaidade inabalável) e muitas naturezas e roupagens (um “anti-narciso”, uma “descolonização do pensamento”, uma “virada ontológica”, um ativismo verde, um anarquismo “contra o estado”, uma antropofagia radical). Viveiros não responderá a críticas, pois sua perspectiva não abarca aqueles que problematizam suas teorias barrocas fora das meras convenções de sua Alta Cultura Acadêmica. Suas teorias são dirigidas aos antropólogos que têm suficiente bagagem intelectual para entendê-lo, mas acima de tudo admirá-lo. Ele quer elogios, ele é um gênio. O perspectivismo veio para salvar a antropologia e colocar o Brasil no mapa (no mapa da disciplina e nos debates de Cambridge). Com algum talento para percepções de cunho psicológico podemos perceber seu narcisismo. Ele parece querer ser um Lévi-Strauss tropical, antropofágico, mas infelizmente não passará de um erudito, intelectual, acadêmico, como seu mestre, ainda que a “contracultura” seja tão presente em suas ideias… É tudo uma questão tribal. A antropologia é um grupo de interesse que não percebe e não está interessada em perceber seu privilégio de casta. São “brâmanes” interessadíssimos nas culturas, ou melhor, “multinaturezas” do Outro. Seus conceitos não ultrapassam e não pensam sua realidade privilegiada, só o privilégio dos outros. Viajam, aprendem, leem, escrevem, pensam, ensinam em instituições sagradas. São os prestigiados letrados da Sociedade Ocidental, num Brasil hipócrita, excludente, antidemocrático e com castas inconscientes. Os “nobres” da antropologia não contribuem para sanar o lapso educacional e cultural de 500 anos. Ensinam a si mesmos, pensam para si mesmos e seus discípulos e vão dando continuidade à sua medíocre casta, que tive a felicidade de abandonar, me sentindo sempre um estranho no ninho. Por favor, não comparemos Viveiros a pessoas ligadas à arte e à antropofagia. Falo de Zé Celso, Caetano, Glauber, Helena Ignez e outras fodas por aí… esses são antropofágicos, porque devoram pelo inconsciente, pelo corpo e pela libido toda a loucura dos brasis e vomitam loucuras de volta para qualquer um que possuir olhos, pele, narizes, ouvidos, pêlos, chinelos ou sapatos, bermudas ou smokings, tangas ou vestidos, paus e bucetas. Viveiros come um menu insípido vindo da sua etnologia escolar, e vomita uma sopa de letrinhas para quem tem cérebro, cu de ferro sem veias, óculos de aro grosso, muito pedantismo e falta de senso de humor genuíno (Não falo de piadinhas acadêmicas sem graça e sem vida). Vomita para quem prefere a pedra à carne. Agora, de fora, gosto mesmo é de criticar a antropologia, perceber seus sintomas, suas características psicológicas compartilhadas, seu estilo de vida… Lute Viveiros. Defenda-se! Que me importa sua indisciplina? Quando é que um acadêmico pode ser um indisciplinado, sem ter medo de perder nota da capes? finaciamento do cnpq, salário de funcionário do estado, respeito dos outros brâmanes? Isso seria apenas mais uma roupagem, um uso, e não um impulso do coração.

    Sua vaidade deixará que você responda?

  5. Pingback: SOBRE RAZOABILIDADE | investigações indigenas

  6. Descolonizar o olhar numa perspectiva eurocêntrica é acreditar numa paz branca e utópica, é negar a arena política.
    Creditar ao Petismo o fracasso político e institucional das políticas públicas é reconhecer a falência dos movimentos socias e principalmente que o excesso de ismos em ambos teoremas reflete o quão distante estão os intelectuais da realidade sociopolítica no Brasil.

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