O discreto charme de Bruno Latour ou a crítica da “anti-crítica”

saraceno

Galaxies Forming along Filaments, Like Droplets along the Strands of a Spider’s Web (2008). Instalação de Tomas Saraceno na Bienal de Veneza de 2009.

Por Benjamin Noys

Podemos dizer que Latour e a anti-crítica pertencem à idade do neoliberalismo. Este pertencimento pode ser oscilante — adesão ou críticas, descrição neutra ou intervenção — mas seu estilo pertence à “gramática do neoliberalismo” como uma forma política particular.

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Traduzir textos, tanto como escrevê-los, é uma maneira de introduzir e fomentar os debates que nos parecem pertinentes. The Discreet Charm of Bruno Latour or the critique of ‘anti-critique’ (“O discreto charme de Bruno Latour ou a crítica da “anti-crítica””), redigido por Benjamin Noys, introduz uma série de preocupações relativas ao rechaço teórico, político e metodológico de Bruno Latour frente ao procedimento crítico. As reflexões de Noys dialogam com outras discussões que vêm sendo desenvolvidas no blog do GEAC sobre temáticas semelhantes (Elementos para uma crítica do “novo materialismo”. Ou, mais além de Latour, de volta a HegelViveiros, indisciplina-te!Uma interpelação feminista indígena à “Virada Ontológica”…; A antropologia ontológica e a postergação da críticaAfinal, como Viveiros vive a política?Quando acordamos…; Anotações sobre etnografia, ciência sucessora e movimento da práxis). O debate de Noys pode ser complementado e matizado através da leitura de Critical political ecology and the seductions of posthumanism, artigo de Fayaz Chagani.

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O discreto charme de Bruno Latour ou a crítica da “anti-crítica”

O mais recente romance de Michel Houellebecq, intitulado O Mapa e o Território (2010) fala de um artista chamado Jed Martin, de nacionalidade francesa, apesar de seu nome soar estadunidense. A obra do artista está, de várias maneiras, relacionada com a questão do trabalho[1]. Ele começa, como estudante, tirando fotografias de objetos industriais com a pretensão de oferecer uma descrição objetiva do mundo. Seu próximo projeto, que irá torná-lo famoso como artista, é uma série de fotografias close-ups dos mapas da França provinciana elaborados por Michelin e exibidos ao público numa exposição intitulada “O mapa é mais interessante do que o território”. Em seguida, ele retoma o exercício da pintura e elabora sessenta telas a óleo intituladas “Série de profissões simples”, cuja preparação demorou mais de sete anos. Estas obras exploram a divisão do trabalho na sociedade contemporânea. Os retratos incluem Ferdinand Desroches, Cavalo Butcher e sua obra-prima Bill Gates e Steve Jobs discutindo o futuro da Tecnologia da Informação. Ao fracassar no intento de pintar Damien Hirst e Jeff Koons dividindo o mercado da arte, particularmente por sua dificuldade em pintar o rosto de Koons, Jed decide pintar Michel Houellebecq, um personagem fictício em seu próprio romance (a obra se chamaria Michel Houellebecq, Escritor). O escritor, em seguida, compõe um ensaio para o catálogo da exposição, no qual avalia que a visão de Jed sobre o capitalismo é “a de um etnólogo, muito mais do que a de um comentarista político.” [2] As telas são vendidas a meio milhão de euros cada uma.

Não é difícil — quando se pensa nesse olhar etnográfico que reflete e talvez inadvertidamente valoriza o capitalismo contemporâneo, ao invés de diretamente criticá-lo — recordar o trabalho de Bruno Latour. Seu projeto descritivo, plasmado na teoria do ator-rede, propõe o mapeamento e a graficação dos “objetos” — daí a conhecida “ladainha latouriana” sobre os objetos, que reverbera em todos os seus estudos. Tendo como seu ponto de partida o estudo social da ciência, as articulações de redes latourianas parecem estender-se por toda parte: urbanismo, direito, arte, filosofia, política, etc. Seu trabalho também tem sido influente na articulação do chamado “realismo especulativo”[3], assim como nos estudos literários e culturais[4]. Lembremos da cena de Houellebecq, na qual os dividendos obtidos pelo artista com suas descrições também nos falam do estatuto errático de tais gestos. Assumindo que o trabalho de Latour tem como premissa a novidade da análise de rede, é de se notar que, no final das contas, tal abordagem parece espelhar as operações do capitalismo-em-rede[5].

O que me interessa aqui não é apenas analisar o risco de uma convergência entre este estilo de análise e as características do capitalismo contemporâneo, mas também a equívoca atração que ele é capaz de exercer — o seu discreto charme. Em particular, estou preocupado com Latour na medida em que ele exemplifica sintomaticamente a “anti-crítica”; a virada da análise crítica em direção ao descritivo e a perda de confiança no próprio gesto da crítica. Poderia ter escolhido muitas outras figuras para interpelar este tipo de “anti-crítica” tão difundido atualmente; seria possível, por exemplo, considerar o trabalho de Jacques Rancière, que ataca incansavelmente a suposta superioridade e até mesmo o esnobismo assumido pela crítica ao postular uma ordem apenas apreensível por sábios[6] corretamente informados. Ou a obra de Michel Foucault, com suas desreificações de certas categorias da crítica como as ideias de “social” e “econômico”.

Bernard Stiegler, em um livro bastante estranho (Para uma nova crítica da economia política), observou que falar hoje sobre crítica envolve, necessariamente, um diálogo polêmico com o argumento pós-estruturalista que afirma que a crítica é inseparável da metafísica e que seria melhor desconstruir do que criticar. Ele prossegue afirmando que o que está ausente é uma crítica da “crítica da crítica”, ou seja, algum esclarecimento sobre que postura crítica pode ser assumida sem se incorrer em oposições metafísicas[7]. O que Stiegler exige é que nós “voltemos a empreender a crítica da economia política”[8], apesar de ele próprio terminar empantanado numa mistura bizarra de Christopher Lasch com Gilbert Simondon, preso a uma oposição entre o investimento e o consumo e a um respeito injustificado por Barack Obama que não parecem adequados para tão elevada tarefa.

No entanto, Stiegler apresenta bem a sua questão. O que eu quero traçar na continuação, tomando Latour como “objeto” polêmico privilegiado, é uma crítica da anti-crítica. Contestar o discreto charme de Latour é arriscar-se a restaurar a crítica em polêmica com um pensador que negou os recursos da crítica como se estivessem ultrapassados e fora de moda. No prefácio à primeira edição de seu Anti-Dühring (1877), Engels começava observando que “o presente trabalho não é, de forma alguma, fruto de qualquer impulso interior. Pelo contrário” [9]. Posso dizer a mesma coisa sobre a polêmica aqui desenvolvida. Mais do que o resultado de qualquer animosidade particular — embora, sem dúvida, elas possam existir – minha crítica é fruto de uma preocupação com a forma como, para usar as categorias de Gramsci, nós poderíamos dizer que a cosmovisão latouriana expressa um certo “senso comum”, um estilo — ou tom (Stimmung) — muito disseminado. Tom este que pode ser encontrado no campo geral da teoria social e cultural. Como na maioria das polêmicas, um alvo[10] particular se encontra constelado — ou metonimicamente ligado — com algo de maior importância. Estão em jogo, aqui, questões relacionadas com a “economia política” e sua crítica, especialmente em um momento em que a crise capitalista global tem, precisamente, aperfeiçoado as próprias categorias do capitalismo. Categorias às quais a crítica parece ter dado um alegre adeus[11].

Revisionismo reticular

Para entender os termos do projeto de Latour podemos tomar uma recente auto-caracterização em que o autor assume como imagem do seu trabalho a obra de arte de Tomas Saraceno intitulada Galaxies Forming along Filaments, Like Droplets along the Strands of a Spider’s Web (2008), exibida na Bienal de Veneza em 2009 (uma foto da obra ilustra a presente postagem)[12]. Este trabalho, que tive a oportunidade de ver pessoalmente, consiste numa corda elástica que forma uma “rede” na qual se constituem esferas e linhas. Latour concebe a obra em questão como uma metáfora que coloca sua teoria de redes em relação com o argumento de Peter Sloterdijk sobre um pensamento das esferas e dos envelopes[13]:

O trabalho de engenharia e arte empreendido por Saraceno revela que multiplicar as conexões e arranjá-las a uma curta distância nos fará ver que a rede se transfigura lentamente em uma esfera (através da qual é difícil enxergar). Maravilhosamente simples e terrivelmente difícil [14].

Esta é uma expressão interessante da insistência latouriana na construção, ou composição, como condição de existência. Neste caso uma rede de filamentos cria um mundo, ou redes e esferas, vínculos e ambientes, delicadamente ligados entre si e ligados a certas formas, incluindo o próprio mercado da arte.

Uma das principais características deste trabalho é que, de acordo com Latour, “não há nenhuma tentativa de concentrar todas as relações dentro de uma ordem hierárquica”. [15] Ele não nega hierarquias locais, mas nega que possa haver qualquer hierarquia global. Isto obviamente tem implicações para a prática crítica. O que Latour está negando, como veremos mais detalhadamente, é qualquer lugar ou local de exceção para uma crítica que se atrevesse a estabelecer hierarquias sobre as redes. A desativação da crítica é possível “porque as redes não têm um dentro, unicamente elas irradiam conectores. Tais conectores são arestas. Eles fornecem ligações, mas nenhuma estrutura. As pessoas não residem em uma rede, mas movem-se para outros pontos através das bordas”[16]. Para Latour esta formulação permite-nos evitar o pecado do modernismo — presumindo a hierarquia de um ponto central — e do pós-modernismo — presumindo um nivelamento. Em vez disso, podemos ter precisão sem hierarquia.

Esta, então, é a imagem do pensamento de Latour. Ao contrário das narrativas modernistas de progresso e das narrativas pós-modernas de nivelamento[17], ele insiste sobre a riqueza das redes como meio para desafiar as reduções que ele vê no trabalho da crítica. Não é difícil imaginar por que esses postulados dialogam tão intimamente com gosto de nossos tempos. Latour, a propósito, dá muita importância a contemporaneidade de sua obra, assim como também ao fato de, como ele diz, “não querermos ter muito a ver com o século XX”[18]. Mais precisamente, o que Latour quer tem pouco a ver com qualquer projeto revolucionário prometeico, qualquer tentativa de mudar o mundo radicalmente, ou qualquer ‘paixão pelo real’, para usar os termos de Badiou[19]. Neste ponto ele pertence autenticamente ao nosso tempo[20]. Sob a roupagem de uma recomendação metodológica inócua e de um estilo às vezes modesto de reivindicações, há uma recusa explícita de pensar e compreender a possibilidade da uma crítica que não esteja em conformidade com a pseudo-imagem ideológica projetada por Latour. Nesta imagem distorcida a crítica aparece como uma mistura de reducionismo iluminista, economicismo marxista e barbárie nietzschiana.

O martelo de crítica

Para descompactar a anti-crítica de Latour quero começar por uma metáfora particularmente desajeitada escolhida por ele para explicar os limites da crítica: “com um martelo (ou marreta) em mãos, você pode fazer um monte de coisas: quebrar paredes, destruir ídolos, ridicularizar preconceitos; mas você não pode concertar, montar, remontar, costurar[21]”. A questão é óbvia: crítica só é bom para destruir e causar dano, para atenuar, para tirar da realidade, para diminuir e piorar, ao passo que a alternativa do composicionismo latouriano torna possível a construção, o cuidado, a reparação. Infelizmente, as elisões abundam; com um martelo de verdade o que você pode fazer é, precisamente, ‘montar’ e ‘remontar’, como qualquer pessoa que tenha usado um martelo bem sabe – embora certamente você não possa ‘costurar’. Assim, encontramos o “martelo da crítica substituído por uma marreta”, uma ferramenta bastante diferente, mas ainda crucial para muitas formas de “montagem” e não inteiramente destrutiva. O ‘marreta’ da crítica é então usada para “quebrar o mundo em dois”, enquanto, ao mesmo tempo, Nietzsche é usado para argumentar que a crítica depende da postulação de um “submundo da realidade”[22]. Na verdade, Nietzsche muitas vezes desempenha um papel duplo na obra de Latour, como uma espécie de fármaco para a sondagem da ‘crítica’.

O que Latour questiona na crítica é essa suposta postulação de uma realidade superior ‘verdadeira’ que só pode ser compreendida por poucos. Para escapar desse imperativo, desta crença “juvenil” e “ingênua”, temos que nos engajar com “a suspensão do impulso crítico”. Assim, a crítica não é simplesmente abandonada, mas reinscrita e reanalisada como um gesto frustrado por seu próprio e necessário fracasso, por sua própria futilidade[23]. Na terminologia de Latour temos que nos afastar da iconoclastia da crítica para voltar apreendê-la como um iconoclash. Mesmo sendo incapaz de alcançar os seus objetivos declarados, o iconoclash continua agindo sem se importar[24]. Novamente, existe uma espécie de deslizamento nessa transição. Começamos com a suspensão dos termos “usuais” da crítica (-clasm) – considerados inócuos – e com um interesse em redescrever ou recolocar o que acontece no gesto de crítica (-clash). O problema é que esta reapresentação da crítica — que pode parecer estar em conformidade com o chamado de Stiegler para uma crítica isenta de oposições metafísicas — rapidamente torna-se a dissolução completa da crítica[25]. Crítica torna-se um ato impossível, incapaz de realmente afetar o mundo, exceto através de uma espiral de violência física e intelectual[26]. Tentando, no clichê de Latour, garantir um ponto de segurança a partir do qual martelar o mundo, a crítica, como um mau carpinteiro, atinge a si mesma, rebota no objeto e termina como raiva impotente.

Crítica, então, é a fúria de destruição alimentada por sua própria incapacidade de levar a cabo o programa de purificação e incapaz de realmente entender ou reter qualquer coisa do mundo. Essa caracterização recorda, aliás, a crítica hegeliana do Terror na Fenomenologia. Faz lembrar, também, da crítica da “paixão pelo real”, apresentada como sinônimo de uma política de destruição versus uma política de subtração proposta por Badiou. Como nota Stiegler, este tipo de análise tornou-se um verdadeiro senso comum. Assim, mesmo não querendo descartar a necessidade de reflexão histórica e política sobre a função da crítica, aqui podemos ver o desaparecimento de crítica.

A sedução da anti-crítica

Para Latour poderíamos substituir a crítica por um deslocamento em direção a composição, avaliando “a diferença fundamental entre o que é bem ou mal construído, bem ou mal composto”[27]. Contra o que Latour considera como o reducionismo da crítica e sua tendência a tomar uma posição transcendente diante do mundo, ele apresenta o composicionismo como um complemento que é sempre imanente à realidade. Não é de surpreender que tal posição seja atraente, dada sua consonância com a “ideologia democrática” que se coloca dentro e entre um conjunto de “coisas” completamente equalizadas e tem medo de qualquer hierarquização e “imposição” de planejamento e estruturas. Claro que, como ocorre com todas as ideologias, este apelo à igualdade é fictício. Na verdade, o discurso da “diferença”, despojado do seu aristocratismo explicitamente nietzscheano, é usado para instaurar um mundo riquíssimo que engloba a “igualdade” dentro da “variedade” e que reinstala uma hierarquia “soft”. Antes de passar para o ponto nevrálgico de minha crítica, quero me deter um pouco mais nos encantos e atrações da abordagem de Latour. Afinal, nenhuma ideologia é simplesmente uma questão de engano. Ela sempre tem certo apelo, além de uma instanciação material e psíquica.

Um elemento crucial de sedução, muito utilizado por Latour, é a restauração da agência. Ao contrário dos efeitos “incapacitantes” da crítica total, que promete lucidez às custas da práxis[28], Latour afirma que seu trabalho restaura o necessário ‘jogo’ dentro da ‘estrutura’ através da reinscrição do poder nas redes:

Com relação ao total, não há nada a fazer senão ajoelhar diante dele, ou pior, sonhar com a ocupação do lugar de poder completo. Acho que seria muito mais seguro afirmar que a ação só é possível em um território que foi aberto, achatado para baixo; um lugar onde formatos, estrutura, globalização e totalidades circulam dentro de minúsculos condutos, e onde eles precisam confiar em massas de potenciais escondidos[29].

As redes são atos de desreificação, trazendo para a terra as abstrações aparentemente intratáveis do capitalismo e seus críticos. Em uma inversão do sentido usual das “economias de escala”, ganhamos uma redução da escala (“minúsculos condutos”) que torna possível a intervenção.

Nas formulações de Latour este ganho é rapidamente perdido, já que somos encorajados a adicionar, construir, desenvolver, redigir e então trabalhar com o “grão” da realidade seguindo os fios, ou a adição de mais linhas, em vez de desvenda-los. O resultado é um emaranhado estranho de agência no qual os pontos de intervenção são multiplicados ao passo que o horizonte ‘global’ recua. Também podemos ver como Latour prossegue através de uma radicalização da crítica — empurrando a lógica da desreificação, usualmente atribuída ao marxismo, até o limite de fazer “evaporar” o objeto “capitalismo”.

Latourianos de esquerda

Como Latour é muitas vezes bastante explícito sobre a natureza da sua própria política, que se encontra muito longe do clichê do intelectual francês e da esquerda radical, talvez seja interessante ver como o seu pensamento pode exercer atração sobre a esquerda. A opção por um latourianismo de esquerda pode ser vista em vários pensadores — nem todos explicitamente em dívida com Latour — que seguem a sua desreificação do poder através das “redes” e dos “efeitos locais”. Para citar dois exemplos, em primeiro lugar poderíamos considerar o trabalho de Eyal Weizman na arquitetura ou na ecologia da ocupação da Palestina (trabalho, devo dizer, que eu muito admiro)[30]. Weizman, refletindo em uma entrevista sobre sua análise da política espacial da ocupação, define seu trabalho como “plástico político”. Discutindo o “muro de separação” entre Israel e Cisjordânia palestina, ele argumenta que todos os atores políticos envolvidos estão “constantemente empurrando e puxando o caminho desta linha, encaminhando-a e reencaminhado-a”[31], e que “quando a linha se solidifica tu podes ver em cada torção, volta e detalhes do próprio percurso a pegada material das forças aplicadas em um determinado terreno topográfico e humano”[32]. Embora não fazendo referência a Latour, podemos ver uma preocupação semelhante com uma pluralidade de atores, com a quebra da solidez do poder em uma série de decisões, uma atenção ao mesmo tempo “concreta” — ou “material” — e imaterial — uma “política material”[33].

Isso desemboca num ganho de agência, dado que o ‘muro’ já não é simplesmente a ferramenta sem cortes que aparenta ser; mas é um “ganho” que desloca a agência em todas as direções: “Em última análise, o que integra esse tipo de configuração são vários campos de força naturais, políticos, artificiais, micropolíticos; este tipo de ecologia complexa das coisas[34] consiste numa zona de influências na qual o próprio muro participa como agente”.  A agência plural é distribuída em todos os lugares. No entanto, ela acaba sem capacidade alguma de tração, principalmente se levarmos em conta os imperativos da intervenção política, que exigem formas particulares e compactas de agência dirigida.[35]

Meu segundo exemplo, também um trabalho que admiro, é Timothy Mitchell. Seu livro intitulado Democracia do Carbono (2011) segue o caminho latouriano da desreificação de estruturas de dominação, traçando as redes e as formas que as constituem — neste caso, o entrelaçamento entre energia à base de carbono e democracia. Ele afirma:

O carbono em si deve ser transformado, começando com o trabalho feito por aqueles que o retiram do solo. As transformações envolvem o estabelecimento de conexões e a construção de alianças — conexões e alianças que não respeitam qualquer divisão entre o material e o ideal, o econômico e o político, o natural e o social, o humano e o não-humano, ou a violência e a representação. As conexões que tornam isso possível traduzem uma forma de poder em outra [36].

Mais uma vez, podemos ver alguns ganhos com esta abordagem — a análise das formas empíricas de poder, a relação com a localização dos trabalhadores, bem como a possível “maleabilidade” dessas “estruturas”. O resultado é uma litania típica: “para que esses fluxos de petróleo, as ações militares, os rumores da indústria, os números de abastecimento, os cálculos políticos e as reações dos consumidores estejam juntos — como num caso clássico de leis da economia –, um novo mundo sócio-técnico teve que ser montado para mantê-los reunidos”[37].

Se Weizman demonstra, ou tenta demonstrar, como o modelo de “rede” ou arranjo (assemblage) multiplica a agência, o trabalho de Mitchell, por sua vez, sublinha também a desreificação do capitalismo. Este autor refere-se criticamente às “assim chamadas forças globais do capital”[38], para contestar qualquer concepção do que ele chama “lógica homoeficiente do capitalismo”[39]. Esta última é substituída por uma nova formulação: “o capitalismo industrial baseado no petróleo não aparece mais auto-suficiente. Seu sucesso depende de outras forças, as quais são ao mesmo tempo essenciais e disjuntivas frente ao processo que chamamos de desenvolvimento capitalista”[40]. Obviamente caudatário da equívoca pluralização foucaultiana “do capitalismo em capitalismos”, que é incorreta porque está localizada nas proximidades das teorizações neoliberais do capitalismo plural[41], podemos ver um padrão estranhamente rígido definido para o funcionamento do capitalismo que em nenhum momento parece considerar a necessidade de qualquer referência a real análise de Marx.

Por um lado, este tipo de trabalho indica como a análise — ou o estilo de análise — latouriana evita que nosso acesso ao mundo empírico esteja imediatamente sobrecarregado pelo risco de reproduzir o mundo tal como nós o encontramos. O ato de desreificação permite o acesso às minúcias da realidade que certas formas de crítica tendem a deslocar ou desativar. Por outro lado, a dificuldade é que esta restauração da análise obstrui outras formas de “realidade” — notadamente a do capitalismo — e não conduz necessariamente a uma restauração da agência. Na verdade, para fins de desreificação, nós podemos de fato dizer que o capitalismo opera como uma “rede”, mas isso não parece multiplicar possibilidades agenciais de intervenção. Este, penso eu, é o tipo de impasse alcançado por trabalhos desta ordem. Mesmo proporcionando uma excelente análise local das modalidades de poder e dominação, capaz de seguir de forma mais ampla os fios das redes, a proposta analítica em questão parece incapaz de apreender a forma particular do capitalismo, que precisamente se encontra entre imanência e transcendência. O resultado é que, no movimento de tornar a agência possível, a inflação de agência ‘local’ cobra o preço de incapacitar a mudança ou a confrontação de qualquer um dos termos do jogo. O capitalismo parece manter-se como um “horizonte impossível de transcender”, contrapartida da famosa observação de Sartre sobre o comunismo.

Capitalismo, uma história de amor

O que eu quero sugerir é que a atração exercida por essas formas de anti-crítica emerge de uma má compreensão da forma do capitalismo. Latour e outros defensores da anti-crítica colocam o capitalismo em uma posição ao mesmo tempo muito elevada e muito reduzida; muito elevada ao atribuir à crítica uma representação do capitalismo enquanto dominação total e absoluta. Desta representação só o próprio Latour consegue escapar. Este argumento que fabrica espantalhos (dos quais não nego que possam existir alguns raros exemplares), faz do capitalismo um monstruoso domínio do qual nada pode escapar. A alternativa, então, é desreificar o “capitalismo” em várias formas e arranjos locais que, de algum modo, se encaixam numa rede que nunca é totalmente dominante, que está aberta à intervenção e pode ser interrompida. Esta concepção ilumina o capitalismo e instala na sua exterioridade grandes extensões do social e do natural. Isto fica bem resumido numa deliberada provocação de Latour:

Disse-se muitas vezes que o “capitalismo” era uma novidade radical, uma ruptura inédita, uma “desterritorialização” levada ao extremo final. Como sempre, Diferença é mistificação. Como Deus, o capitalismo não existe. Não há equivalentes; estes têm de ser feitos, e eles são caros, não conduzem longe, e não duram muito tempo. Nós podemos, na melhor das hipóteses, estender as redes. O capitalismo ainda é marginal até hoje. Logo as pessoas vão perceber que é universal apenas na imaginação de seus inimigos e advogados[42].

O capitalismo é marginalizado, tratado como um fantasma gerado por seus defensores e críticos. O que se evapora, contudo, é qualquer tentativa de abolir o capitalismo. Aqui encontramos conformidade com o modelo neoliberal, que supõe capitalismos plurais e singulares, que pode (apenas) “inventar um capitalismo diferente”. Este é um capitalismo enfraquecido, um capitalismo descafeinado para tomar emprestada uma expressão de Žižek. Ainda assim, nunca podemos nos livrar dele.

Quero sugerir que essa sucessão de equívocos decorre da uma falha na consideração da função mediadora do capitalismo que, a rigor, não depende do comportamento consciente dos sujeitos, quer se trate do próprio capitalismo como macro-sujeito ou de vários “agentes” do capitalismo. Rubin havia notado que o capitalismo é “uma densa rede de relações de produção indiretas” [43]. Se nos focarmos apenas na fenomenalidade estatal ou em outras formas identificáveis de “agência” — em termos de atores reais (humanos ou não) – nos faltará uma compreensão crítica sobre o funcionamento do capitalismo de uma forma social e, mais precisamente, como uma forma-valor. Claro, isso não significa negar a “personificação” do capital nem negar o que Marx observa como o “despotismo” da fábrica ou da oficina. Trata-se, pelo contrário, de inscrever este “despotismo” como resultado da condução indireta à acumulação que orienta todo o processo; como diz Marx: “numa sociedade com produção capitalista, a anarquia na divisão social do trabalho e o despotismo da oficina são condições que se investem reciprocamente” [44]. É este condicionamento — e a condução abstrata do capital–, que termina deslocado pela leitura realizada por Latour a respeito do próprio discurso crítico[45].

Tudo soa ainda mais irônico se considerarmos a quão visível é a crise do capitalismo. Aqueles que estiveram freneticamente enfatizando a pluralidade e a dispersão dos capitalistas agora parecem invocar, contentes, um capitalismo singular — um sistema global — que nos convoca à austeridade. Georg Lukács observou que: “nos períodos em que o capitalismo funciona de uma forma chamada normal, e seus vários processos parecem autônomos, as pessoas que vivem dentro da sociedade capitalista a pensam e a experimentam como unitária, enquanto que em períodos de crise, quando os elementos autônomos são atraídos juntos em unidade, elas o experimentam como desintegração” [46]. Na verdade, poderíamos argumentar que o aparecimento de subsistemas “autônomos” caracteriza os tipos de análise que viemos traçando, que eram paradoxalmente dependentes da “unidade” do capitalismo. Neste período de crise capitalista global nós estamos enfrentando uma unidade que aparece como a desintegração do mundo da vida — não a desintegração “feliz” dos sistemas autónomos e da “diferença”, mas sim a desintegração mais “infeliz” do colapso catastrófico e da debandada. Neste caso, o cotidiano estado de emergência do capitalismo é revelado como seu estado normal graças à gravidade da crise.

Conclusão: a hora solitária da última instância

Louis Althusser uma vez comentou que, sendo “a economia determinante, mas só em última instância”, “a hora solitária” da última instância “nunca chegará”[47]; Obviamente Althusser dizia isso para refutar o tipo de reducionismo econômico clichê que Latour considera marca registrada do marxismo. Apesar de eu não querer voltar a afirmar um determinismo não mediado, o que posso dizer é que com a crise financeira global certamente os capitalistas estão felizes o suficiente para reconhecer o poder determinante da “última instância” da economia. É claro que a separação entre o econômico e o político, como efeito ideológico, é o signo do capitalismo, assim como também o é a determinação da política pela economia — pensemos nas lideranças políticas da Itália e da Grécia. O capitalismo, como um “sistema” totalizante, visa a produção e a constituição da determinação ‘econômica’. A anti-crítica atribui esta postura à crítica, acusando-a dos próprios pecados do capitalismo. Poderíamos falar de um “complexo de Cassandra”, no qual os mais terríveis prognósticos são ignorados ou menosprezados por serem atribuídos à crítica.

Desta forma, uma suposta desreificação que se apresenta como mais radical do que qualquer forma de crítica demonstrar ser uma verdadeira re-reificação. A dissolução do capital em redes e objetos reproduz a imagem do capitalismo bem sucedido como uma série de sub-sistemas autônomos. Ela também reproduz o capitalismo como um local de intervenção, mas apenas no sentido de que podemos mudar e reformatar o capitalismo para produzir uma forma social mais “bem sucedida”. Nesse preciso sentido, podemos dizer que Latour e a anti-crítica pertencem à idade do neoliberalismo. Como eu vim demonstrando, este pertencimento pode ser oscilante — adesão ou críticas, descrição neutra ou intervenção — mas seu estilo pertence à “gramática do neoliberalismo” como uma forma política particular.

Para ir encerrando, quero sugerir que um ponto de partida para a re-afirmação da crítica é a problematização desta “gramática”. Nietzsche observou que não nos livraremos de Deus enquanto continuarmos a acreditar na gramática. Meu ponto é que nós não nos livraremos do neoliberalismo enquanto continuarmos reproduzindo aquela gramática que lhe é tão própria e que nos fala de um capitalismo limitado, confinado e reformável. Se a anti-crítica tem se debruçado sobre a fé no declínio do poder da racionalidade social e da instauração de formas de luta, então devemos notar que a crítica, por si só, não pode responder a estes problemas. Dito isto, nós precisamos investigar mais atentamente essa rapidez com que alguns dizem adeus para a crítica e abandonam vastas áreas da análise social como se fossem irremediavelmente ultrapassadas e anacrônicas. Mesmo que a anti-crítica tenha muitas vezes se baseado na historicização refinada como forma de se opor aos macro-postulados radicais, na verdade ela se projeta a si mesma como uma “grande narrativa”, apesar de sua modéstia.

Para concluir, ao invés de mais um intento cansativo de conclamar uma “nova” teoria, uma ‘nova’ ontologia, uma ‘nova’ metafísica como solução para os impasses e fracassos do presente, o que eu sugiro é um pensamento mais paciente e cuidadoso diante de um período de derrota. Esta postura não é certamente compatível com o tom da teoria contemporânea, que parece baseada num otimismo frenético; mas tampouco faz nenhuma concessão aos nossos tempos reacionários. Certa dose de paciência, certa recusa a saudar alegremente a destruição criativa forjada em nós e a decisão de não jogar fora os ganhos obtidos: eis as virtudes que considero necessárias para a prática crítica.

Notas

[1] Michel Houellebecq, The Map and the Territory, trans. Gavin Bowd (London: William Heinemann, 2011).

[2] Houellebecq, The Map, p.122.

[3] See Graham Harman, Prince of Networks: Bruno Latour and Metaphysics (Melbourne: re.press, 2009).

[4] For an example, see Heather Love, ‘Close but not Deep: Literary Ethics and the Descriptive Turn’, New Literary History 41 (2010): 371-391.

[5] As Latour concedes, in a footnote, see Bruno Latour, Reassembling the Social (Oxford: Oxford University Press, 2005), p.252, note 351.

[6] Jacques Rancière, The Emancipated Spectator, trans.

[7] Bernard Stiegler, For a New Critique of Political Economy, trans. Daniel Ross (Cambridge: Polity, 2010), p.15.

[8] Stiegler, For a New Critique, p.15.

[9] Friedrich Engels, Anti-Dühring, Original Preface, Marxists Internet Archive, http://www.marxists.org/archive/marx/works/1877/anti-duhring/preface.htm#c1

[10] On the role of the ad hominem in Marxist critique, see Alberto Toscano, ‘Ad Hominem: Antinomies of Radical Philosophy’, Filozofski Vestnik XXIX.2 (2008): 137-153, pp.137-142.

[11] See my ‘Bye, Bye, Mr Critique?’, No Useless Leniency Blog, Wednesday 12 October 2011, http://leniency.blogspot.com/2011/10/bye-bye-mr-critique.html.

[12] Bruno Latour, ‘Some Experiments in Art and Politics’, e-flux journal 23 (2011) http://www.e-flux.com/journal/view/217.

[13] See Peter Sloterdijk, Bubbles: Spheres I, trans. Weiland Hoban (New York: Semiotext(e), 2011).

[14] Latour, ‘Some Experiments’.

[15] Latour, ‘Some Experiments’.

[16] Latour, ‘Some Experiments’.

[17] See Bruno Latour, We Have Never Been Modern, trans. Catherine Porter (London and New York: Harvester Wheatsheaf, 1993).

[18] Bruno Latour, ‘An Attempt at a “Compositionist Manifesto”’, New Literary History 41.3 (2010): 471-490, p.476.

[19] Alain Badiou, The Century [2005], trans. Alberto Toscano (Cambridge: Polity, 2007).

[20] See Alberto Toscano, ‘A Plea for Prometheus’, Critical Horizons 10.2 (2009): 241-256.

[21] Latour, “Compositionist Manifesto”, p.475.

[22] Latour, “Compositionist Manifesto”, p.475.

[23] Latour’s anti-critique arguments recall the ‘rhetoric of reaction’ analysed by Albert O. Hirschman as moving between perversity, futility, and jeopardy; See Albert O. Hirschman, The Rhetoric of Reaction: Perversity, Futility, Jeopardy (Cambridge, MA, and London: Harvard University Press, 1991).

[24] http://www.bruno-latour.fr/livres/cat_icono_chap.html

[25] Latour, “Compositionist Manifesto”, p.475.

[26] For a critique of Latour on the question of violence, see Benjamin Noys, The Persistence of the Negative (Edinburgh: Edinburgh University Press, 2010), pp.92-102.

[27] Latour, “Compositionist Manifesto”, p.474.

[28] For an example of the anxiety at the debilitating effects of total critique, from the left, see Adam Curtis, ‘Dream On’, Adam Curtis – The Medium and the Message Blog, Sunday 30 October 2011,

http://www.bbc.co.uk/blogs/adamcurtis/2011/10/dream_on.html.

[29] Latour, Reassembling, p.252.

[30] Eyal Weizman, Hollow Land (London: Verso, 2007).

[31] Weizman, ‘Political Plastic’, p.260.

[32] Weizman, ‘Political Plastic’, p.261.

[33] Weizman, ‘Political Plastic’, p.262.

[34] Weizman, ‘Political Plastic’, p.263.

[35] See Peter Hallward, ‘The Politics of Prescription’. South Atlantic Quarterly 104 (2005): 769–89.

[36] Timothy Mitchell, Carbon Democracy: Political Power in the Age of Oil (London: Verso, 2011), p.7.

[37] Mitchell, Carbon Democracy, p.176.

[38] Mitchell, Carbon Democracy, p.204.

[39] Mitchell, Carbon Democracy, p.213,

[40] Mitchell, Carbon Democracy, p.214.

[41] Foucault notes that ‘If we accept that we are not dealing with an essential capitalism deriving from the logic of capital, but rather with a singular capitalism formed by an economic-institutional ensemble, then we must be able to act of this ensemble and intervene in such a way as to invent a different capitalism.’ Michel Foucault, The Birth of Biopolitics: Lectures at the Collège de France, 1978-79, trans. Graham Burchell (Basingstoke: Palgrave, 2008), p.167.

[42] Bruno Latour, The Pasteurization of France, trans. Alan Sheridan and John Law (Cambridge, MA, and London: Harvard University Press, 1988), p.173 (my emphasis).

[43] I. I. Rubin, Essays on Marx’s Theory of Value [1928], trans. Milos Samardzija and Fredy Perlman (Montreal: Black Rose Books, 1973), p.8.

[44] Karl Marx, Capital vol. 1, p.243.

[45] Foucault notes that for neoliberalism ‘Abstraction is not the result of the real mechanics of economic processes; it derives from the way in which these processes have been reflected in classical economics.’ (The Birth of Biopolitics, p.221).

[46] Georg Lukács, ‘Realism in the Balance’, Adorno et al., Aesthetics and Politics (London: Verso, 2007), p.32.

[47] Louis Althusser, For Marx (Harmondsworth: Penguin, 1969), p.112, p.113.

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