“Rememorar Outubro, pensar mais além da ‘agência'” e “Uma martelada na cabeça”

As situações narradas por Luis Brunetto em “Uma martelada na cabeça” (Un martillazo en la cabeza) não podem mais do que soar extemporâneas, e até mesmo incríveis, aos ouvidos de uma ciência social conformada com abordar as assimetrias de poder e as desigualdades do seu tempo sob o prisma daquilo que poderíamos denominar, muito genericamente, “paradigmas da agência”. No afã quase desesperado de rastrear agências, “táticas dos fracos”, mediações e negociações em todos os lugares, muitxs cientistas sociais acabam deixando de lado, voluntária ou involuntariamente, a pergunta pelos devires revolucionários da vida coletiva.

Apresentação (“Rememorar Outubro, pensar mais além da agência”) seguida do texto “Uma martelada na cabeça”, de Luis Brunetto, publicado originalmente na edição de março-abril da Revista Sudestada, de Buenos Aires.

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Apresentação: Rememorar Outubro, pensar mais além da “agência”.

Por Alex Martins Moraes

Este ano o blog do GEAC está priorizando intervenções que procurem articular o debate teórico sobre marxismo e comunismo com problemáticas específicas da pesquisa social contemporânea. Nosso objetivo é visibilizar outras agendas investigativas que atualizam a abordagem empírica de situações concretas por fora do asfixiante marasmo copista da universidade produtivista. A celebração dos 100 anos da Revolução de Outubro é um momento estratégico para colocar em evidência as expressões atuais da pesquisa social radical, uma vez que a proliferação, em diversos meios de comunicação, de relatos e reportagens sobre o acontecimento mais importante do século XX instiga em muitas pessoas a vontade de se familiarizar com as perspectivas teórico-políticas que se consideram continuadoras daquela enorme aposta coletiva cujo ano emblemático é 1917.

A intervenção que compartilhamos mais abaixo, escrita por Luis Brunetto e publicada na edição de março-abril de 2017 da revista argentina Sudestada, não se refere diretamente à prática da pesquisa social e tampouco procura explorar suas possíveis associações com as lutas emancipatórias atuais. Trata-se, basicamente, de uma breve recuperação do clima social que antecedeu a queda do Governo Provisório, instalado depois da renúncia do czar russo, e abriu caminho ao experimento de poder soviético. A importância deste relato para a linha editorial que procuramos desenvolver ao longo de 2017 reside no efeito de estranhamento que ele pode chegar a produzir em muitxs de nós, estudantes e professorxs de antropologia e ciências sociais. O ambiente intelectual dos últimos trinta anos, marcado, sem dúvidas, por um consenso mais ou menos tácito a respeito do perecimento de todos os igualitarismos radicais e de suas respectivas expressões políticas, parece ter orientado nossas perspectivas analíticas ao estudo da “agência” e das resistências intersticiais que, de forma pontual, parcial e transitória, desafiam ou pervertem os objetivos estratégicos do poder hegemônico. As situações narradas por Luis Brunetto em “Uma martelada na cabeça” (Un martillazo en la cabeza) não podem mais do que soar extemporâneas, e até mesmo incríveis, aos ouvidos de uma ciência social conformada com abordar as assimetrias de poder e as desigualdades do seu tempo sob o prisma daquilo que poderíamos denominar, muito genericamente, “paradigmas da agência”. No afã quase desesperado de rastrear agências, “táticas dos fracos”, mediações e negociações em todos os lugares, muitxs cientistas sociais acabam deixando de lado, voluntária ou involuntariamente, a pergunta pelos devires revolucionários da vida coletiva. Tudo se passa como se os “dominados” de hoje em dia já tivessem abdicado da fantasia de exercer radicalmente sua autodeterminação para, em vez disso, prescrever aos mandões de sempre como gostariam de ser governados. Adotar esta perspectiva seria uma prova de “realismo”? Penso que não. É verdade que o triunfalismo neoliberal tem sido efetivo em negar às expressões atuais da resistência um horizonte político crível, que se contraponha positivamente às supostas evidências utilizadas para justificar a manutenção da estratégia capitalista. Isto não quer dizer, contudo, que as pessoas tenham deixado de se inquietar diante das limitações inegociáveis dos atuais regimes de poder que configuram as modalidades legítimas de participação política e a distribuição dos recursos materiais socialmente disponíveis. Podemos falar, então, da existência de um excedente de força coletiva que nem sempre encontra expressão política, mas cuja mera existência já indica a presença latente de uma disposição antagonista – e não necessariamente “agentiva” – em face da parafernália institucional solidária à ordem capitalista. Por que esta dimensão da realidade é obstinadamente elidida pelas agendas de pesquisa mais convencionais? Talvez o sucesso dos “paradigmas da agência” tenha menos a ver com o realismo dxs novxs cientistas sociais do que com os dispositivos institucionais que organizam a produção de conhecimento em nossos dias.

No momento de se debruçar sobre as conflitividades sociais contemporâneas, muitxs pesquisadorxs acabam procurando em seus respectivos contextos de investigação as únicas formas de luta que elxs próprixs conseguem exercer no seio das relações de poder que os envolvem e constituem no ambiente universitário. A imagem dos antagonismos sociais como arenas de negociação, agência pontual e resistência intersticial reflete a realidade das próprias universidades, onde a chantagem produtivista e os verticalismos naturalizados impõem a “agência” como única forma de canalização dos conflitos e descontentamentos existentes. Não quero afirmar que quando colocam a cabeça para fora da universidade, xs acadêmicxs contemplam uma imagem completamente falsa da realidade social. Sugiro, apenas, que seus quadros de análise costumam ser demasiadamente estreitos, numa relação de proporcionalidade direta com a margem de manobra da qual elxs mesmos dispõem para transformar seu cotidiano mais imediato.

Como Luis Brunetto nos mostra no texto que compartilhamos na continuação, a posicionalidade geográfica e social de sujeitos que vivem um mesmo momento histórico incide sobre as perspectivas que eles poderão nutrir a respeito do devir de suas sociedades. Isto explicaria por que o poeta Vladimir Maiakovski, instalado na Rússia e exposto às intensidades que abalavam enormes contingentes da população em 1916, foi de certo modo mais sensível do que Lênin, exilado na Suíça e frustrado com os rumos da social-democracia europeia, ao vaticinar a sublevação que se avizinhava. Escrevia Maiakovski: “Onde ninguém vê nada, onde a vista se encurta, vejo marchar por cima do cume do tempo a cabeça de hordas famintas, o ano 16 coroado pelos espinhos da revolução”. Guardadas as proporções, observamos um fenômeno semelhante no Brasil de 2013. Quando “de repente” os protestos contra o aumento das passagens de ônibus ampliaram suas consignas e radicalizaram sua tática de luta, adquirindo os contornos de verdadeiras sublevações urbanas, xs analistas sociais autorizadxs, assim como o grosso dos meios de comunicação, só conseguiram enxergar neles um mistério insondável; mistério que suas parcas ferramentas de análise nem chegaram perto de desvendar. Mas os paralelismos com a Rússia revolucionária terminam aqui, porque enquanto sujeitos como Lênin procuraram transcender de forma positiva seu embasbacamento inicial, as elites universitárias brasileiras se restringiram ao voyeurismo.

Quando Junho passou e a multidão raivosa cedeu lugar às pacíficas marchas dominicais que, na ante-sala do golpe parlamentar, pediam “todo o poder à Polícia Federal”, nossxs intelectuais se retraíram pesarosos, convencidos do fracasso de uma rebelião que elxs apoiaram timidamente – desde que não descambasse para o “vandalismo” –, mas que nunca chegaram a compreender. Era hora de voltar ao paradigma da “agência”, defender o pouquinho que restou e, claro, depreciar todas as reminiscências do delírio de Junho que continuaram – e continuarão – irrompendo, aqui e ali, nas escolas e universidades ocupadas pelos estudantes. A aposta na “agência” e nas “micro-políticas” é a aposta imediatista, a busca do consolo rápido imposta pela insidiosa sensação de impotência política que assola vastos setores da intelectualidade brasileira. Se o György Lukács de História e Consciência de Classe estivesse vivo, diria que nossxs intelectuais universitárixs são oportunistas incapazes de “ver a si mesmos e o instante de sua ação como momento da totalidade, do processo: incapazes de ver a derrota como caminho rumo à vitória”. É que para elxs não pode haver “vitória” nos termos de Lukács, simplesmente porque já declinaram desse horizonte político. Melhor, então, limitar-se ao artesanato cotidiano de tomar nas próprias mãos, sempre parcial e transitoriamente, as regras do jogo social em vez de correr o risco de sofrer derrotas vãs que não levam a lugar nenhum.

Cauterizados pelo paradigma da agência, xs intelectuais que foram pegxs de surpresa pelas sublevações de Junho de 2013 no Brasil nunca acreditaram realmente na potência que elas continham. Quando de sua irrupção, não lhes ocorreu outra atitude que procurar desvendá-las. Mas não havia nada para ser desvendado – pelo menos não pelos distantes comentaristas de camarote. De fato, eram os manifestantes que estavam desvendando, na prática, novos caminhos para a intervenção popular numa conjuntura política – o lulismo em sua expressão dilmista – que já não fazia jus às enormes promessas e expectativas que lhe haviam dado origem. A postura de Lênin, há cem anos, foi totalmente diferente da assumida pela intelligentsia “progressista” brasileira. Se no início de 1917 ele afirmava, numa palestra aos jovens socialistas suíços que “nós, os velhos, talvez não cheguemos a ver as batalhas decisivas dessa revolução futura”, poucos meses depois, confrontado com a radicalização dxs trabalhadorxs em seu país, o líder do Partido Bolchevique telegrafou o seguinte aos seus camaradas na Rússia: “Nenhum apoio novo governo, suspeitamos especialmente Kerensky, única garantia armar proletariado”. Com esse ânimo de acompanhar resolutamente a exploração revolucionária das possibilidades colocadas por uma nova conjuntura, Lênin enriqueceu o pensamento marxista, dissociando-o definitivamente dos mecanicismos que tendiam a condicionar a emergência da revolução exclusivamente ao desenvolvimento das forças produtivas verificado em cada país. Em vez de desvendar um acontecimento, Lênin o acompanhou para depois potencializar a razão marxista com as novas verdades trazidas à tona pela práxis histórica de um segmento do povo.

Lembrar de Outubro de 1917 não é entregar-se à nostalgia, mas sim recorrer a uma estratégia de estranhamento de nós mesmos através do contato com uma espécie de alteridade política capaz de evidenciar as particularidades e eventuais limitações das posturas que nos sentimos inclinados a adotar aqui e agora, num período histórico diferente. Para usar uma expressão um pouco cafona, recorrente nas aulas de introdução à antropologia, rememorar 1917 é, de certa forma, um “exercício antropológico” que nos permite incursionar no espaço intelectual da revolução para mapear os lugares e as posturas que outrora proporcionaram o aparecimento de certa forma de analisar conjunturas, fazer política e formular teoria. Depois de empreender tal exercício, seria conveniente indagar por que estes lugares e posturas parecem ter sido liquidados, por que a prática intelectual terminou tão precarizada, tão miserável, tão despojada de quaisquer conceitos que não sejam solidários, no final das contas, com a manutenção do status quo. (Por mais que falemos de agência e tratemos de encontrá-la em todos os lugares, raramente nos perguntamos sobre a natureza da ordem que impõe a agência como modalidade privilegiada –  ou mesmo exclusiva – de intervenção política e exercício da “autonomia”.) Tais indagações não precisam, necessariamente, alimentar em nós qualquer pretensão restauradora, qualquer vontade de retorno aos métodos, aos lugares e às categorias que informaram a prática revolucionária de um sujeito como Lênin. Recomeçar ou retomar a atitude leninista não é imitá-la em seus conteúdos conceituais e anteparos materiais mais específicos – e historicamente determinados –, mas sim levar a sério a disposição subjetiva da qual ela foi expressão.

Em Diferença e Repetição, Deleuze definia assim a atitude político-intelectual de Lênin: “cada Ideia têm duas caras que são o amor e a cólera; o amor na busca de fragmentos, na determinação progressiva de um encadeamento dos corpos reais em adjunção; a cólera na condensação de singularidades que define, à força de acontecimentos ideais, a acolhida de uma ‘situação revolucionária’, e faz eclodir a Ideia no atual. É nesse sentido que Lênin teve ideias”. Como voltar, então, a ter ideias no sentido que Lênin as teve? Que dispositivos teremos que construir para desestatizar – ou melhor, com perdão do barbarismo, “desestatusquotizar” – nossa capacidade reflexiva e interagir de maneira mais criadora e produtiva com o mundo? Ou será que agora, justamente quando as forças mais conservadoras encontraram um ambiente apropriado para lançar sua ofensiva em múltiplas escalas, já não dispomos de outra saída mais além de recorrer à manipulação circunstancial dos construtos ofertados pelo poder? No início do século XX, num momento de avanço conservador, em meio à traição da social-democracia europeia, que decidira apoiar o belicismo chauvinista da burguesia imperialista em ascensão, Lênin e seus camaradas pensavam diferente. E tinham razão.

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Uma martelada na cabeça

Por Luis Brunetto. Publicado originalmente na revista Sudestada. (Tradução: GEAC)

Onde ninguém vê nada, onde a vista se encurta, vejo marchar por cima do cume do tempo a cabeça de hordas famintas, o ano 16 coroado pelos espinhos da revolução”, escreveu o poeta bolchevique Vladimir Maiakovski pouco antes de a revolução de fevereiro derrubar o pluricentenário regime czarista.

Seu prognóstico foi mais correto que o do seu próprio líder, Lênin, que ainda em janeiro de 1917, exilado na Suíça, diante de uma conferência para jovens socialistas, sustentava o seguinte: “nós, os velhos, talvez não cheguemos a ver as batalhas decisivas dessa revolução futura”. Certamente Lênin foi o primeiro a festejar seu próprio erro. Mas como explicar o acerto político do poeta e o desacerto do seu líder? A verdade é que a Primeira Guerra, contra os prognósticos do próprio Lênin, parecia menos uma mãe grávida da revolução do que a sua coveira. Três anos de carnificina não tinham provocado a reação do proletariado europeu; reação que Lênin, junto com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, vaticinara e esperara ansiosamente.

E não era que o proletariado não estivesse preparado para isso. No Congresso de Stuttgart (1907) a II Internacional havia resolvido que, em caso de guerra, os partidos social-democratas convocariam a greve geral. Em consonância com essa resolução, os esquerdistas (bolcheviques russos, espartaquistas alemães e seguidores de Bordiga na Itália) tinham proclamado a tática de “transformar a guerra em revolução”. A social-democracia alemã era o partido político mais importante do mundo. Na França, na Itália, na Áustria e na maior parte dos países da Europa os partidos socialistas agrupados na II Internacional eram decisivos e contavam com o apoio ativo de suas classes operárias.

Por isso, justamente, a traição da social-democracia oficial que, a começar pela alemã, resolveu apoiar suas próprias burguesias quando explodiu a hecatombe, foi um golpe extremamente duro para a classe operária. A primeira reação de Lênin na Suíça ao receber os jornais que traziam a notícia da traição foi acreditar que se tratava de exemplares falsificados, impressos para confundi-lo. Liebknecht, o único deputado social-democrata alemão que votou contra o orçamento de guerra no Reichstag, foi parar na cadeia. A resposta foi a greve geral liderada pelos operários do aço de Krupp, que acabou diluída pelo clima patrioteiro e belicista.

Em definitiva, os grupos social-democratas que mantiveram os princípios internacionalistas foram uma ínfima minoria. Poucas dezenas de dirigentes compareceram às politicamente tão importantes conferências internacionalistas de Kienthal e Zimmerwald em 1915 e 1916, de modo que a posição dos bolcheviques, no sentido de transformar a guerra em revolução, encontrou sérias resistências.

Fevereiro traz revoluções

Este era, então, o clima que explica a desorientação momentânea de Lênin. Entretanto, o processo de agitação e luta das massas, interrompido em 1914 pela entrada da Rússia na guerra, foi se incrementando até alcançar um clímax grevista no início de 1917: 600 mil grevistas vieram a duplicar nos primeiros dois meses do ano a cifra corresponde a todo 1916. Lembremos que o texto de Lênin aos jovens socialistas é de janeiro e de que as notícias demoravam semanas para chegar, sobretudo porque tinham que driblar a censura czarista. No entanto, Maiakovski, jovem poeta revolucionário exposto ao calor dos acontecimentos, sentia a revolução na própria pele.

Como já sinalizamos, o patrioteirismo não durou mais além de 1914. Em 1915, o Alto Comando admitia que a vitória era impossível. Mais de um milhão de mortos e quatro milhões de feridos pesavam no duro fardo que o Czar Nicolau II havia deixado ao povo russo. As penosas condições de vida dos soldados, camponeses pobres em sua imensa maioria, e as normas disciplinares feudais que incluíam a tortura e a morte, provocaram uma onda implacável de deserções, estimularam o ódio definitivo ao czarismo e a convicção massiva de que a única solução era liquidá-lo, concluindo, assim, o que havia começado em 1905. Nas cidades faltava pão e, sobretudo, lenha em pleno feroz inverno russo.

Nesse clima de agitação política, os partidos da burguesia pressionavam, com apoio das embaixadas da França e da Inglaterra, para que Nicolau fizesse concessões políticas e, inclusive, abdicasse em favor de outro membro da família czarista dos Romanov. Os kadetes (por sua sigla KDT, ou seja, democratas constitucionais) e os outubristas (monarquistas constitucionais), junto aos imperialistas franceses e ingleses, buscavam uma saída que aliviasse o ambiente, acalmasse as massas e permitisse o relançamento dos esforços de guerra. Mas as massas, já cansadas, não deram tempo aos artífices desta operação política e se colocaram em marcha por conta própria.

As trabalhadoras têxteis do bairro operário de Viborg, futuro bastião dos bolcheviques, foram as primeiras a declarar a greve em 23 de fevereiro. Sua consigna: Pão! … “Hoje ocorreram algumas desordens. Nada sério”, telegrafava, no dia 24, Sir George Buchanan, embaixador britânico, numa mensagem ao Foreign Office. Estava enganado: a greve se estendeu até abarcar toda a capital e, entre 26 de fevereiro e 1º de março, era impossível reprimi-la: as tropas se negaram a disparar contra seus irmãos e terminaram se unindo a eles. Era a revolução de fevereiro, o fim do czarismo.

Lá vêm os soviets

Nenhum dos partidos da esquerda russa foi capaz, nesse momento, de abrir o caminho do poder para o povo trabalhador. Mencheviques e socialistas revolucionários eram partidários da implantação de uma república constitucional. Os bolcheviques, debilitados pela repressão e pelo chauvinismo – que os haviam levado praticamente à ilegalidade – careciam não só da estrutura necessária, mas também da liderança adequada no lugar dos acontecimentos.

Neste contexto foi eleito o Governo Provisório, em cuja cabeça se encontrava um primo do czar, o príncipe Lvov. Seu cérebro era, entretanto, Miliúkov, chefe dos kadetes, na pasta de Relações Exteriores. O Ministério de Finanças iria parar nas mãos do latifundiário Kereschenko e o de Indústria e Comércio caberia ao industrial Konoválov, ambos outubristas. O trudovique (trabalhista, socialista moderado) Kerensky, futuro fugaz primeiro ministro, representava a “ala de esquerda” do gabinete, desempenhando a função de Ministro da Justiça.

Mas o poder do Governo Provisório não dependia em absoluto de si mesmo, mas sim da concessão do poder das massas revolucionárias pelo Comitê Executivo do Soviet de Petrogrado. Esse organismo tinha se formado em plena insurreição, em 27 de fevereiro, com o menchevique Cheidze como presidente e os social-revolucionários Sokovelev e Kerensky como vice-presidentes. Foram eles os que, aterrorizados diante do poder das massas, pressionaram a ressuscitada Duma para que elegesse um governo que evitasse que o próprio soviet tomasse o poder em suas mãos. O próprio Kerensky admite a manobra em suas Memórias : “existia o perigo de que o soviet se proclamasse a si mesmo autoridade suprema da revolução, a não ser que se constituísse imediatamente um governo provisório”.

De qualquer forma, o Comitê Executivo não podia “esconder” o poder do soviet. Nascido na Revolução de 1905 e renascido nos dias do levantamento de fevereiro, o organismo não podia fazer outra coisa senão expressar a vontade revolucionária de operários e soldados. Sua direção moderada esperava que, com o passar do tempo, ele perdesse seu caráter de poder paralelo ao do Governo Provisório e suas funções fossem absorvidas pelo nascente estado democrático burguês. Esperava, portanto, anular o mecanismo do duplo poder que já estava em marcha.

Rapidamente, contudo, a direção do soviet precisou tomar algumas medidas urgentes exigidas pelo povo trabalhador, que eram expressão de seu caráter de “estado paralelo”. O acatamento por parte da guarnição militar de Petrogrado da célebre Ordem nº 1, na qual o soviet pedia que ela se colocasse sob suas ordens, demonstrava que as massas atribuíam um papel histórico decisivo a esta instância de poder e que estavam dispostas a defendê-la a qualquer preço. Para os operários e os soldados, o soviet era o verdadeiro coração da revolução. Faltava o partido que organizasse essa perspectiva e elucidasse, na prática revolucionária, a solução para o problema do duplo poder. Mencheviques e social-revolucionários se negavam a desenvolver essa linha de ação e, pelo contrário, promoviam seu abandono. Os bolcheviques, dirigidos por Josef Stálin e Lev Kamenev, os primeiros dirigentes de peso a chegarem do desterro siberiano, se contentavam com jogar o papel de ultra-esquerda dos mencheviques e social-revolucionários que, por sua vez, eram a esquerda do impotente Governo Provisório. No editorial do primeiro número do Pravda, órgão oficial do partido, no dia 15 de março, proclamava-se o apoio ao Governo Provisório, “sempre e quando este se oponha à reação e à contra-revolução”. O editorial também afirmava que, enquanto o exército alemão não se levantasse contra o Kaiser, os soldados russos “deveriam continuar firmes em seus postos respondendo um tiro com outro tiro”.

Este não era o ponto de vista das bases do partido. O comitê bolchevique do bairro operário de Viborg, o mais importante de Petrogrado, publicou um manifesto de protesto: para não perder a confiança da classe operária, o Pravda “devia manter acessa a chama da consciência revolucionária”. No exílio, Lênin preparava febrilmente o retorno e martelava telegramas para Stálin e Kamenev na mesma linha dos operários bolcheviques de Viborg, em cujas casas recebera abrigo em centenas de noites clandestinas: “Nenhum apoio novo governo, suspeitamos especialmente Kerensky, única garantia armar proletariado”. Viborg, proletário na proletária Petrogrado, preparava-se para receber seu líder, Lênin, Ilich, Starik, o velho de 46 anos que chegaria num trem lacrado à estação Finlândia em 3 de abril. Alguns, como o menchevique Sujanov, lembrariam aquele discurso na estação, aquele silêncio proletário ávido de ideias e de ação, aquele esforço supremo de entendimento dos que, nas palavras de Marx, tem mais necessidade de respeito do que de pão, como uma “martelada na cabeça”.

No dia seguinte, na conferência do partido bolchevique, Lênin leria suas célebres Teses de Abril, nas quais ofereceria a solução do enigma revolucionário afrontado pelas massas: Todo o Poder aos Soviets.

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