Economia Humana e desenvolvimento

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Por Keith Hart. Tradução e apresentação: Paulo Muller

 De acordo com Marx, pessoas, máquinas e dinheiro são importantes em nossas sociedades (…) O dinheiro compra máquinas que controlam o acesso das pessoas ao trabalho. A tarefa da humanidade é inverter essa ordem.

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O texto que segue apresenta algumas ideias e perspectivas básicas do Programa em Economia Humana (Human Economy Programme. Ver os sites http://thehumaneconomy.blogspot.com.br/ e http://www.up.ac.za/human-economy-programme), sediado na Universidade de Pretória, na África do Sul, que reúne colaboradores de diferentes países do mundo em torno do objetivo de produzir entendimentos sobre fenômenos econômicos a partir da articulação de metodologias de pesquisa oriundas das ciências humanas com experiências de ativismo no campo econômico-financeiro (p. ex.: altermundialismo, economia solidária, antiutilitarismo). Os rudimentos do universo conceitual da Economia Humana podem ser encontrados nos estudos socioantropológicos sobre a “economia informal”, termo cunhado por Keith Hart, na África ocidental e austral nos anos 1970 a partir de observações sobre grupos de ajuda financeira mútua. A difusão destes estudos estimulou tanto a proliferação de novas iniciativas nesse sentido, subsidiando movimentos orientados para a “economia popular” ou a “economia solidária”, quanto projetos de formalização destas práticas sob a chancela de instituições financeiras e estatais, tais como alguns programas de “micro-crédito”. Os estudos em Economia Humana também se colocam na disputa com o pensamento liberal neoclássico e seus derivados (como a teoria da escolha racional, a economia política nacionalista e o neoliberalismo) pelo significado de instituições econômicas tais como o mercado, o dinheiro e o comércio. Do ponto de vista da Economia Humana as condições de existência de tais instituições não podem ser confundidas com a forma que assumem sob o capitalismo contemporâneo.

Ler texto no idioma original.

Economia Humana e desenvolvimento

Ronald Coase recebeu um prêmio Nobel em economia por ter inventado a ideia de custos de transação em “A natureza da firma” (1937). Pouco antes de sua morte, aos 102 anos, junto com Ning Wang, anunciou um novo periódico chamado “Man and the economy” (“Homem e economia”). Seu manifesto, “Saving economics from the economists” (“Salvar a economia dos economistas”), foi publicada na Harvard Business Review (2012):

No século XX economistas podiam se dar ao luxo de escrever exclusivamente uns aos outros (…). A redução das ciências econômicas à teoria dos preços é bastante preocupante. É suicida para este campo deslizar para uma ciência dura das escolhas, ignorando influências da sociedade, história, cultura e política no funcionamento da economia. É tempo de reconectar à economia o campo severamente empobrecido das ciências econômicas. Economias de mercado surgindo na China, Índia, África, e outros lugares, anunciam oportunidades sem precedentes para que economistas estudem como a economia de mercado se torna resiliiente em diferentes sociedades. Mas o conhecimento somente virá se as ciências econômicas puderem se reorientar para o estudo do homem como ele é, e dos sistemas econômicos como de fato são.”

Este chamado encontra eco em um movimento de estudantes de economia iniciado há dez anos, que se chamava “Economia Pós-Autística”, e que mais tarde fundaram a Real World Economics Review (Revista de Economia do Mundo Real). Nesse período formou-se uma legião de economistas heterodoxos, o que indica que, dentro da profissão das ciências econômicas, também há muita resistência ao modelo dominante da escolha racional e do “livre” mercado, e entre suas prioridades se destacam: reconectar o estudo da economia ao mundo real; tornar suas descobertas mais acessíveis ao público; colocar a análise econômica em moldes que abarquem a humanidade como um todo.

A abordagem da “economia humana” compartilha de todas estas prioridades. Buscamos nos inspirar e contribuir com a tradição do pensamento econômico, mas nos mantemos abertos a outras tradições. O programa de Economia Humana da Universidade de Pretória iniciou em 2011 com diretrizes um tanto vagas. Nossa meta era construir diálogos entre nós, com especialistas, e fundamentalmente com o público em geral. Este diálogo se baseia tanto em investigações e comparações empíricas quanto no desenvolvimento de modelos teóricos e metodológicos que possam fundamentar outras pesquisas.

Em primeiro lugar, nosso método básico se inspira na revolução etnográfica promovida pela antropologia social e cultural, que foi o primeiro esforço duradouro de uma classe acadêmica no sentido de se relacionar com as pessoas nos lugares onde elas vivem, buscando descobrir o que fazem, pensam e querem. Em segundo lugar, entendemos que a economia sempre é plural, e a forma como as pessoas a experienciam através do tempo e do espaço têm mais em comum do que sugerem termos utilizados para contrastá-los, como “capitalismo” e “socialismo”. Tal abordagem lida com a variedade de instituições particulares através das quais a maioria das pessoas experienciam a vida econômica. Em terceiro lugar, temos como meta promover a democracia econômica auxiliando pessoas a organizar e melhorar suas próprias vidas. Nossos achados devem, desta forma, ser apresentados ao público dentro de um espírito pragmático, e produzidos de modo compreensível para seu uso prático.

Tudo isto é compatível com uma visão humanista da economia humana. E assim deve ser se queremos que a economia retorne do domínio de especialistas remotos para as pessoas que são mais afetadas por ela. Mas humanismo, por si só, não é suficiente.

A economia humana também deve ser informada por uma visão econômica capaz de preencher o vácuo entre a vida cotidiana (o que as pessoas sabem) e as circunstâncias que a humanidade tem em comum, que são inevitavelmente impessoais e estão além do ponto de vista do ator (o que as pessoas não compreendem totalmente). Uma variedade de métodos podem ser tomados da filosofia, da história geral, da literatura e da grande teoria social. A globalização não é irreversível – uma fase similar da globalização financeira e do movimento populacional de massa em torno de 1900 terminou em guerras, nacionalismos e introversão econômica – mas temos que ampliar nossa percepção usual para lidar com suas contradições.

A sociedade mundial emergente é o novo universal humano – não uma ideia, mas o fato de que nossa ocupação compartilhada do planeta exige novos princípios associativos. Precisamos urgentemente construir um mundo onde todas as pessoas possam viver juntas. O singelo pode ser bonito, e uma preferência por iniciativas fundadas em realidades sociais locais é essencial, mas burocracias em larga escala também são necessárias se quisermos que a democracia econômica abranja o movimento do mundo em que vivemos.

Desde 1800 a produção de energia cresceu duas vezes mais que a taxa populacional. Agora, muitas pessoas vivem mais, trabalham menos e gastam mais do que costumavam. Mas a distribuição desta energia extra é brutalmente desigual. Um terço da humanidade ainda trabalha no campo, usando as mãos. Norte-americanos consomem 400 vezes mais energia do que ugandeses. Assume-se que a corrida caótica da humanidade das aldeias para as cidades foi motivada por um mecanismo de crescimento e desigualdade econômicos conhecido como “capitalismo”. Mas muitas formas sociais tiveram que emergir para organizar este processo em larga escala: impérios, Estados-nação, cidades, corporações, federações regionais, organizações internacionais, mercados capitalistas.

Precisamos de mais coordenação social efetiva no nível global, e o avanço rumo à auto-gestão local é forte em muitos lugares. Progressistas desabonam as instituições burocráticas dominantes enquanto promovem grupos e redes auto-organizadas em pequena escala. Ainda assim, nenhuma sociedade futura pode prescindir das principais formas sociais que nos trouxeram a este ponto. Precisamos, então, resolver como Estados, cidades, e muito dinheiro podem ser seletivamente combinados com iniciativas de cidadãos para promover uma sociedade mundial mais democrática. Um primeiro passo seria parar de vermos a economia exclusivamente em termos nacionais.

Muitos ativistas neste campo, para não mencionar grupos mais radicais, não consideram trabalhar com Estados e empresas. Mas a revolução francesa foi apoiada por transportadoras de Nantes e Bordeaux, a revolução italiana por industriais de Milão e Turim. O experimento queniano, mundialmente pioneiro, de dinheiro móvel, M-Pesa, foi iniciado por uma subsidiária da Vodacom. A Hewlett-Packard desenvolveu estações de pesquisa em lugares remotos para tornar computadores acessíveis para os ‘quatro bilhões mais pobres” do mundo.

Economia popular

A noção de “economia popular” surgiu na América Latina, nos anos 1990, levando novas coalizões (camponesas, sindicais, e de trabalhadores urbanos informais) a se aliarem com governos progressistas. O Brasil de Lula inaugurou um sistema de bancos comunitários que combina relações microfinanceiras com moedas sociais. O governo do Uruguai patrocinou um circuito alternativo “3C”* para Pequenas e Médias Empresas (PME) utilizando faturas. A África do Sul está acelerando o acesso das PMEs à liquidez por meio de um escritório de autenticação de faturas (Invoice Clearing Bureau).

Esta dialética entre humanismo em pequena escala e instituições de larga escala pode ser ilustrada por um retrato composto. Lindiwe é uma mulher zulu de meia idade que já trabalhou em uma fábrica e hoje é empregada doméstica em Durban. Ela aluga um quarto da prefeitura na periferia da cidade e se locomove para o trabalho em micro-ônibus informais (“táxis”). Ela cuida da mãe mutilada, que recebe uma pensão do governo, e das filhas pequenas de seu irmão, que tem AIDS. Os filhos adolescentes de Lindiwe estão desempregados e pendem para o crime e para as drogas. Seu marido desapareceu há muito tempo. No tempo livre, vende cosméticos para vizinhas, faz compras em mercados locais e, uma vez por semana, em um supermercado. Frequenta uma igreja baseada na teologia da prosperidade, já participou de vários clubes de poupança e deve dinheiro a tubarões financeiros, mas não tem uma conta bancária. Está conectada apenas de forma periférica ao “capitalismo sulafricano”.

Perceba-se a complexidade dos arranjos econômicos de Lindiwe e a variedade de fontes às quais ela recorre. Ela entende sua própria vida melhor do que qualquer um. Mas há questões para as quais ela não tem resposta: onde estão os empregos dos homens nas minas? Por que todas as fábricas quebraram? Por que as escolas estão falindo? Por que um governo negro fez tão pouco para reduzir a pobreza e a desigualdade?

A abordagem da economia humana deve, de alguma forma, preencher o vácuo entre a vida de Lindiwe e um mundo conduzido por forças que ela não tem como compreender. Isto implica em um grande esforço de pesquisa e educação pública. Lembremos que a religião sempre foi mais eficaz em conectar assuntos humanos ao mundo dos objetos; a comunidade espiritual de Lindiwe já faz isso por ela.

Dada nossa preferência por entender estratégias econômicas ancoradas na vida diária das pessoas, em suas aspirações e circunstâncias particulares, o movimento intelectual que define nossa pesquisa é o de extensão do local para o global. Não temos como chegar a uma perspectiva sobre o todo instantaneamente, mas podemos participar mais concretamente do mundo que fica além das instituições mais familiares. O principal meio de alcançar a extensão social tem sido sempre por meio de diferentes formas de mercado e de dinheiro.

Sem dinheiro, Lindiwe não teria como se equilibrar na pletora de instituições às quais ela recorre. Dinheiro e mercado são intrínsecos a nosso potencial humano, e não anti-humanos. Mas também é claro que deveriam assumir formas mais propícias à democracia econômica. As questões sem resposta de Lindiwe se originam de circunstâncias que ela conhece bem, ao mesmo tempo em que se abrem para perspectivas mais amplas. Isto ajuda a reconhecermos que o mercado e o dinheiro aproximam os extremos da experiência humana: nos ligam ao universo de nossas relações sociais e definem com precisão nossas questões mais íntimas. Como sugeriu Simmel, o dinheiro reflete o potencial humano para a universalização da sociedade.

Uma economia que oriente a ação humana

Os princípios de uma “economia”, concebida como uma estratégia específica, deve ser descoberta, assimilada e disseminada. Para ser útil, uma economia deve se basear em princípios gerais que orientem as pessoas a fazerem o que fazem. Não se trata apenas de uma ideologia ou de um choque de realidade. As condições sociais e técnicas de nossa era – a urbanização, o transporte rápido e a mídia universal – podem servir como indicadores para investigações sobre os princípios da economia humana. Não supomos que algumas pessoas sabem mais do que outras, embora geralmente saibam quais são seus interesses melhor do que aqueles que supostamente falam por elas.

Originalmente a “economia” se destinava à orçamentação para a autossuficiência doméstica; a “economia política” promoveu o mercado capitalista passando por cima do patronato militarista; a “economia nacional” buscou equalizar oportunidades em um corpo de cidadãos. A “economia humana” talvez seja uma forma de visualizar o próximo estágio, ligando seres humanos únicos à humanidade como um todo. Isto seria a sequência de uma extensão social, “casa-mercado-nação-mundo”. O programa de Economia Humana de Pretória é um novo nó em uma rede internacional que avança em direção a uma democracia econômica através de pesquisas acadêmicas, iniciativas sociais e difusão pública. Baseados na África do Sul, participamos de diálogos sobre como construir um mundo melhor.

Por fim, uma certa condição política contemporânea torna ainda mais relevante a ideia de economia humana. Coase perguntou por que, se os mercados são tão eficientes, qualquer trabalhador autônomo escolheria trabalhar em um coletivo em vez de simplesmente terceirizar o que não pudesse fazer. Oliver Williamson sugeriu que o limite entre o interior e o exterior da firma é inteiramente flexível, e estende esta ideia às relações entre governos e corporações. A fase fordista de internalização dos custos de transação acabou, entre outros motivos, porque a revolução digital barateou o custo da transferência segura de informações. Isto não quer dizer que as corporações tenham deixado de ser grandes e poderosas. Das 100 maiores entidades econômicas da terra, dois terços são corporações, e metade destas só são menores do que oito países. Ademais, estamos testemunhando um avanço da independência política das corporações, as quais restarão como únicas cidadãs em uma sociedade mundial criada para atender seus interesses.

Esta é a conclusão lógica que se tira do colapso da diferença entre pessoas jurídicas reais e artificiais, concedendo a corporações comerciais a posição legal de cidadãos individuais. Thomas Jefferson identificou nos monopólios comerciais (“pseudo-aristocratas”) uma poderosa ameaça à democracia – meros seres humanos não podem competir com organizações de seu tamanho, riqueza e longevidade.

Coase e Williamson imaginaram um mundo onde companhias controlam a publicidade de suas marcas, terceirizam a produção, a logística e tudo mais, mas internalizam a função de governo. Por que contar com governos para resolver conflitos? Afinal, corporações também precisam lidar com resolução de conflitos internamente. Por que temos leis estatais quando o que o mundo mais precisa é de leis morais? A Responsabilidade Social Empresarial é um campo aberto para a negociação de mudanças na relação entre empresas e sociedade. Que tipo de mobilização política desafiaria o poder das corporações em todos os níveis, do local ao global?

A ideia de economia humana tem suas origens nas atividades informais de pequena escala e em uma ideologia humanista, mas a resistência efetiva à tomada de controle pelas corporações exige alianças seletivas entre iniciativas auto-organizadas localmente e burocracias públicas e privadas de larga escala, bem como o desenvolvimento de redes sociais globais.

Pois a condição humana é impessoal; há poderosas forças anti-humanistas no mundo que compartilhamos. Por isso temos que construir pontes entre atores locais e o novo universal humano, a sociedade mundial. Ser humano é depender de e compreender as condições sociais impessoais para que se possa agir efetivamente. A tese da escolha racional individual sequer chega perto de abordar tal situação. Ao lutar com as corporações temos que estar seguros de que nós somos humanos, elas não. A busca por democracia econômica não será vencida enquanto não esclarecermos essa confusão.

Seres humanos precisam “se sentir em casa no mundo”. O século XX opôs Estado e mercado como dois princípios que se colocaram em um ruinoso conflito, já que são indispensáveis um ao outro, e ainda que na maior parte do tempo deixem as pessoas de fora. A “sociedade” aproxima estes extremos, e de acordo com Marx, pessoas, máquinas e dinheiro são mais importantes em nossas sociedades, mesmo que esta ordem de prioridades se oponha ao que seria desejável. O dinheiro compra máquinas que controlam o acesso das pessoas ao trabalho. A tarefa da humanidade é inverter essa ordem.

* N.T.: Acrônimo que se refere a cadeias de produção que associam computação, tecnologias de comunicação e artigos eletrônicos, ou “Computing, Communication, Consumer Eletronics”.

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