Megaeventos acadêmicos: enquanto um(a) de nós não puder pagar, continuaremos questionando!

Por Coletivo Discutindo Megaeventos Acadêmicos

Nesta intervenção o coletivo Discutindo Megaeventos Acadêmicos desenvolve alguns resultados dos seus debates recentes. Seu texto sugere que a reivindicação de redução das taxas de inscrição nos congressos científicos origina um debate transversal a partir do qual se torna possível analisar, questionar e discutir o modo pelo qual a academia tem se organizado no Brasil e alhures.

* * *

O incômodo com as altas taxas cobradas nas inscrições de megaeventos acadêmicos não é novo. Na última semana de março, lançamos uma carta (“ANPOCS e RBA – não pago!”) com intuito de agregar todes que, assim como nós, estavam insatisfeites com os preços dos próximos congressos na área de ciências sociais de 2016, a saber, a ANPOCS e a RBA inicialmente e também a ABCP, como colegas mostraram posteriormente. Somos um grupo de estudantes de pós-graduação que se juntou para pensar em formas de dialogar e construir alternativas para que o acesso aos congressos fosse aberto a todes: enquanto um de nós não puder pagar, não pagaremos!

A resposta à carta escrita inicialmente superou nossas expectativas. Em poucos dias ela obteve mais de 500 assinaturas de todo o país, não só de pós-graduandes, como também de graduandes, graduades, mestres, doutores, pós-doutores e profes (do ensino básico e da universidade). Assim, com a colaboração e comentários de muites colegas, o debate sobre os modos e as condições de produção do saber acadêmico ampliou-se para além da carta. Nesse meio tempo, também a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) se pronunciou em nota prolongando o prazo de inscrição com a taxa inicial mais barata e apontando para um horizonte de diálogo que poderá ser posto em prática já na próxima Reunião Brasileira de Antropologia.

Com o intuito de continuar reivindicando preços mais justos, percebemos que precisaríamos aprofundar nossas análises do modus operandi acadêmico, o que nos levou a criar, no Facebook, a página “Discutindo megaeventos acadêmicos”, onde condensamos, em diversos textos, questões que extrapolam a carta em si. Acreditamos que a reivindicação de redução das taxas de inscrição nos congressos seja um ponto transversal, a partir do qual podemos analisar, questionar e discutir o modo pelo qual a academia tem se organizado. Portanto, trata-se de múltiplas camadas de análise e de atuação. O presente texto reitera os principais pontos da carta mencionada e traz algumas questões que vêm sendo discutidas na página.

Uma aluna ou aluno de mestrado em antropologia que queira participar de dois dos eventos de grande porte em 2016, como a 30ª Reunião da Associação Brasileira de Antropologia e o 40º Encontro Anual da ANPOCS, vai ter de desembolsar um mínimo de R$ 474,00 apenas de inscrição; se ela/e não conseguir se organizar para cumprir os prazos estipulados por essas organizações, o desembolso final, apenas com inscrição, pode chegar a R$ 805,00. Esses valores não garantem nenhum apoio à hospedagem ou alimentação das alunas e alunos, de modo que estes custos continuam onerando pós-graduandas e pós-graduandos; ainda que sejamos contemplados com um kit congresso, geralmente de utilidade questionável. Levando em consideração a localização dos eventos e dependendo do lugar onde moramos, os custos totais superam, facilmente, o valor de uma bolsa mensal de mestrado: R$ 1.500,00. Deste modo, a aluna ou aluno interessada/o em participar teria de investir, pelo menos, um mês de bolsa apenas para poder debater os resultados de sua pesquisa e buscar amadurecer seu trabalho e carreira. Importante ressaltar que a maior parte dos alunos e das alunas não possui qualquer tipo de bolsa de estudos e muites precisam trabalhar para bancar a sua permanência na pós-graduação. A ida a congressos, portanto, torna-se um luxo do qual bem poucxs podem dispor.

Boa parte desse problema era resolvida – de forma paliativa – com os auxílios concedidos pelos diversos programas de pós-graduação. Porém, com os recentes cortes de verbas para as fundações de auxílio à pesquisa e para o sistema educacional do país, o problema ressurge com força e atinge aqueles que até então tinham garantias. A desigualdade financeira entre os programas parece não incomodar muitos gestores e gestoras da educação superior; tampouco as coordenações de programas, sobretudo aquelas contempladas com mais recursos. Esta falta de preocupação se justifica, em parte, pelos “critérios objetivos” da CAPES que, apesar de pouco questionados, não parecem ser, nem de longe, suficientes para dar conta da avaliação da qualidade dos conteúdos produzidos por quem se forma nesses programas, pelas aulas ministradas e pela dedicação oferecida por diversas professoras e professores. O fato de o corpo discente ser o mais atingido pelas desigualdades atuais também explicaria seu escasso debate. Este é um aspecto frequentemente mencionado nas conversas de alunas e alunos que participam dos grandes encontros, congressos, reuniões etc.

Em um contexto de ampliação do ingresso à universidade – principalmente às graduações – notamos que a pós-graduação continua sendo um entrave ao acesso de alunes oriundos de distintas realidades sociais; realidades que extrapolam e desafiam as estabelecidas classes alta e média no meio universitário. A seleção de novxs bolsistas em programas de pós-graduação, baseada na maior parte das vezes no meritocrático critério de “nota” por desempenho na avaliação de ingresso ou ao longo do semestre cursado, traz consequências no que diz respeito à participação em megaeventos.

Um ponto central da discussão é pensar quais vantagens e desvantagens esse modelo de congressos – ou “megaeventos acadêmicos” – acarreta. Se, por um lado, a ampliação de GTs estimula uma maior participação de alunes nos congressos, por outro, nos perguntamos em quais condições essa ampliação foi feita. É recorrente a existência de GTs lotados, com muitos trabalhos, pouquíssimo tempo de apresentação e menos ainda de debate.

Logo, nos perguntamos em que medida comparecer a esses megaeventos realmente contribui para a consolidação de nossas pesquisas. Utilizamos o termo “megaeventos” porque acreditamos que a academia, por meio da promoção de encontros ou reuniões nos moldes atuais, atende a um modelo produtivista do pensamento acadêmico no qual a presença em reuniões científicas de grande porte deixou de ser uma escolha para se tornar, praticamente, uma obrigação, tanto de alunes quanto de profes. Como esclarecemos na última carta em resposta à ABA, temos ciência da importância de conhecer e ouvir profes e pesquisadorxs já consagrados nas ciências sociais, ainda que não abdiquemos de analisar criticamente os critérios atuais de avaliação que determinam as próprias condições de “consagração intelectual” dos sujeitos. A possibilidade de encontrar colegas de outros estados também é um ponto chave que nos motiva a frequentar grandes eventos, mesmo que saibamos que o sudeste prevalece como seu lócus privilegiado. Portanto, ao se estabelecerem valores que alguns e algumas não podem pagar, até mesmo o acesso aos benefícios produtivistas dos megaeventos acadêmicos acabam desigualmente distribuídos.

Propomos que a existência de facilidades para os professores convidados – isto é, aqueles que têm maior reconhecimento e, portanto, mais financiamentos – como hospedagem, transporte e outros serviços de alto padrão (vide o encontro da ANPOCS) seja repensada de forma que os altos custos não sejam revertidos nas taxas de inscrição. É sabido, por exemplo, que o trabalho de monitoria nesse tipo de congresso é total ou parcialmente voluntário, isto é, o serviço prestado por nossos colegas universitários ao trabalhar voluntariamente nos megaeventos não é remunerado e tem pouco impacto no que se refere aos altos custos dos mesmos. Isso reafirma a desigualdade no que diz respeito às despesas prioritárias dos megaeventos.

Reiteramos que compreendemos os custos dos megaeventos como expressão da desigualdade e do elitismo que predominam nos espaços acadêmicos. Nossa crítica tem como pano de fundo essa desigualdade que julgamos ser necessário desconstruir em uma luta em longo prazo. Não é possível, contudo, esperar por essa macro mudança e continuar pagando caro enquanto isso, de modo que temos propostas mais imediatas, sem perder de vista objetivos mais amplos.  No sentido de fortalecer o diálogo com as organizações nacionais e assim obter resultados práticos na estrutura dos megaeventos acadêmicos, apresentamos nossas principais propostas no momento:

  1. Redução imediata das taxas de inscrição nos megaeventos acadêmicos;
  2. Oferta de restaurantes universitários (R.U.s) e de alojamentos em todos os congressos (disponíveis para todos os inscritos);
  3. Abertura de sessões especiais de debate em cada congresso, de forma que os participantes possam colocar suas propostas relativas ao que pode melhorar ou mudar nos congressos;
  4. Transparência nos gastos de produção dos megaeventos;

Não havendo disposição institucional para reconsiderar valores de inscrição, sugerimos o boicote ao pagamento da taxa de inscrição por parte des alunes que tiveram seus resumos aprovados[1]. A estratégia de boicote consistiria em submeter resumos e, caso haja aprovação, proceder à apresentação oral sem efetuar o pagamento da taxa. O envio do trabalho completo garante sua publicação nos anais do evento e, caso a aluna ou aluno seja barrado na hora da apresentação   por não estar inscrito, sua produção poderá, ainda assim, ser colocada no Lattes no item “trabalho completo publicado em anais”.

Convidamos a todes es interessades a somar no debate e na divulgação de nossas reivindicações e a entrar em contato conosco via Facebook ou e-mail. Enquanto um(a) de nós não puder pagar, continuaremos questionando! Seguiremos lutando pela democratização do conhecimento e pelo fim dos enclaves acadêmicos.

Links para comunicação:

Página “Discutindo Megaeventos Acadêmicos”

Grupo aberto “ANPOCS E ABA – NÃO PAGO!”

Assinar a carta “ANPOCS E ABA- NÃO PAGO!”

E-mail do coletivo: megaeventosacademicos@gmail.com

[1] Em que pese mantenhamos a postura pelo boicote, é preciso reconhecer a postura da ABA que ampliou o prazo de inscrição com o valor mais baixo na RBA de 2016. É um louvável esforço de diálogo e atenção às necessidades de alunes e pesquisadores/professores que não tem financiamento para participar de eventos – em breve nos posicionaremos com relação ao boicote à ABA e demais megaeventos.

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